Corram, Lolas, Corram
Mexer no celular quando nos reconhecemos sozinhos (ou, na melhor das hipóteses, talvez realmente estejamos esperando alguém) é a prova do desconforto em lidar com si próprio. Nem que seja gastando o restante dos créditos promocionais em mensagens monossilábicas; relembrando frases guardadas na Caixa de Entrada que há tempos arremataram amores adolescentes. Claro que não vamos tirar o crédito do valor das coisas em suas devidas épocas: em algum momento aquela seqüência de palavras ordenou o valor da sua vida inteira. Mesmo que isso signifique a comprovação da sua falta de coragem em dizer o que só poderia ser dito pessoalmente. E pior: esfrega-se na própria cara a incapacidade de se desprender do passado. Porque não apareceu ninguém novo. Porque no fundo no fundo você sabe que não quis que aparecesse. Já se gastou tempo demais se convencendo que não há como passar por aquilo de novo – é necessário, no mínimo, que a pessoa sofra pelo menos a metade do que você acha que sofreu para poder seguir em frente; Descobrindo novos jogos e funções no celular além da velha versão do come-come, com o Pac Man substituído por uma minhoca. Mesmo com o relógio no pulso, estando sozinho, observa-se de tempo em tempo as horas passando no bendito telefone. As ho-ras. Tendo um relógio no pulso. Como se ao olhar as horas ali, naquele aparelho, o tempo milagrosamente irá passar num piscar de olhos e funcionará em seu favor. Você reconhece o ridículo da coisa, mas simplesmente não consegue parar. Sim, é ridículo. Mas seria mais patético ainda se alguém conseguir te reconhecer tentando tapear a sua condição solitária. Sim de novo, você está só. Mas tem celular e Ipod.
E tudo que mais se quer em algum milésimo de instante é que o celular execute a sua função existencial: me liga pra resolver a minha vida pro resto do dia. Faça valer cada centavo do pré-pago para ligar exatamente praquele número porque essa ligação será responsável pela futura resolução em conjunto de como devemos preencher o dia. Ou melhor: o dia em que virou nosso. Para dar início em todos os dias de nossos dias.
Aí eu atendo o celular. Aí eu deixo o Ipod em casa.
Aí eu gasto todos os meus créditos de uma vez só porque simplesmente vamos nos encontrar.
Certamente no meu ipod estará tocando essa música até quando eu não ligar mais pra música alguma.
março 21, 2009