Me excomunga, pelo amor de Deus?

Posted On março 16, 2009

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(Tentativas de compreender o jornalismo literário tentando fazer jornalismo literário. Ou o que eu acho que pode ser jornalismo literário… Paciência, por favor. É que nem aprender a dirigir. Só dirigindo)

 

E ali, no domingo clichê macarrão-caseiro-siesta-futebol-Faustão, abre-se o jornal (outro clichê domingaz) com preguiça. Durante a lenta seleção da prioridade dos cadernos, escolhe-se o ‘Caderno 2’ justamente pela preguiça. Mas para chegar ao Caderno 2, deve-se passar pela Capa, Metrópole, Imóveis 1, 2 e 3, Mais e assim por diante. A busca por uma prioridade de leitura leve é interrompida por letras garrafais em caps lock gritando por atenção: ‘ABORTO’. Bom, deve ser uma extensão da discussão do aborto da menina de 9 anos e, pensando nisso, deixa-se pra lá. Chega de dar crédito pra punhetagem em um assunto morto explorado à exaustão: minhas energias já haviam sido sucumbidas no caso Isabella. Cheguei a sonhar que na verdade quem jogou a menina pela janela fui eu. Quase fui, por um impulso de culpa, me confessar na delegacia mais perto de casa por causa de um sonho muito real. Mas e o jornal e essas letras em caps lock? Muito bem, parabéns! Conseguiram: primeiro o ‘ABORTO’ com corpo e serifa encantadoras aí depois o Caderno 2. Combinado.

E então se lê não só a questão do aborto, mas também a da excomunhão dos médicos que realizaram o procedimento. E pior: não me sai da cabeça. Vai macarrão, sobremesa, cochilo… E aborto. Futebol, sobra do almoço, Faustão… E excomunhão.

Com a firme noção de que a polêmica seria enorme se introduzisse o assunto bem no meio do almoço familiar, mas não conseguindo parar de pensar nisso, me animo: ‘é isso!’

Vou até a sala pra anunciar a decisão:

- Mãe, quer me ver dando certo? Vou me excomungar, como faz?

 

Excomunhão, pra mim, é botão de reset. Borracha com branquinho pra não ter erro. Pensar no alívio dos médicos excomungados que se viram livres de qualquer impedimento de culpa ou dever. O engraçado é que isso não é uma questão nem um pouco religiosa.

Agora só falta minha mãe me dizer como.

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